Imperfeições

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Ver defeitos como quem vê virtudes. Gostamos das imperfeições que resultam das falhas — não de falhas deliberadas, ou do desleixo, mas falhas num processo, algo que se desvia, por mais que tenhamos pensado em todos os pormenores de um processo produtivo. Gostamos do acaso que não controlamos: a forma como as fendas da crosta do pão abrem e queimam no forno; a textura irregular que as malhas tomam numa grande peça de lã tricotada à mão; os tons inesperados da lã tingida com plantas e flores, mais clara numa ponta do fio que noutra; as “sardas” que a cana de vime claro das cadeiras mostram timidamente; as rugas no pano de linho e na lona de algodão que permanecem depois da pré-lavagem que fazemos aos nossos tecidos.

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Gostamos das imperfeições que resultam das falhas (...) e do acaso que não controlamos.

São processos sempre imperfeitos, nunca dominados, que só revelam a impossibilidade de domínio sobre as matéria da natureza. E a importância dessa impossibilidade, que nos devolve à possibilidade que queremos ser menos, não em nós mesmos, mas no impacto sobre o nosso habitat. Compreender o potencial de fazer coisas com as nossas mãos não é um hobby, é uma missão para a consciencialização sobre o valor do trabalho, o valor das matérias-primas, o valor do tempo. Enquanto ignorarmos estes três fatores na produção dos bens materiais, vamos estar em negação em relação às estruturas da sociedade de consumo em que vivemos há mais um século.

Só experimentando a manufatura podemos tornar-nos mais conscientes do valor das coisas. E também do tempo que levam a fazer as coisas bem feitas, numa escala humana — que não nega o potencial da máquina, mas recoloca-o nos esquemas produtivos, fazendo-nos controladores desses processos e não controlados por eles.

Nas paredes ou na crosta do pão, na superfície da madeira ou na pele, tudo o que desejamos são aquelas imperfeições que só o tempo e as mãos de alguém sobre uma matéria podem produzir. Acreditamos que uma nova humanização dos objetos terá de passar sempre pelas nossas mãos.

 

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