O pão de todos os dias

De como a rotina de fazer pão nos sensibiliza para o que há de melhor em nós e no espaço que ocupamos na casa. A ideia de começar uma coleção de objetos para fazer pão era talvez o que se esperava de uma designer que faz pão em casa, mas esta coleção, ainda longe de estar completa, conseguiu unir todas as ideias que eu tinha sobre objetos realmente justos e honestos.

Para mim, que gostei sempre de estar na cozinha, esses objetos vieram naturalmente com a relação física com a massa e de como cada objeto “pedia” para ter a mesma memória de gestos que o próprio pão: os dedos do cesteiro enquanto entrança o vime, o corte do tecido para o forro de linho pela costureira, os acabamentos perfeitos desta escova feita numa escovaria única. E a ideia intrínseca de qualidade, que é também a procura pela verdade é pela transparência: de onde vem a farinha, o sal, e a água deste pão? E quem produz estes ingredientes? Se valorizamos a origem do que comemos, e cada vez mais, do que vestimos, então é só natural que nos preocupemos com a origem (e os processos) daquilo que utilizamos no quotidiano. 

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A memória dos gestos parece-me sempre o que de mais importante pode ficar nas experiências efémeras: partilhar uma refeição, cozinhar para alguém, amassar a massa do pão ou só preparar uma mesa de pequeno almoço. A memória dos gestos é também a humanização de cada artefacto, e de cada performance sobre o espaço que nos rodeia. Ao humanizarmos os artefactos, em vez de os esvaziar de valor e significado, vamos refletir e considerar muito mais cada um deles. Essa humanização das coisas, deverá contribuir para o desenvolvimento da empatia e da sensibilidade social. Se virmos pessoas por trás de cada objeto, a efemeridade e a superficialidade das práticas de consumo diário terão a oportunidade de serem revistas e alteradas. Só esta ação profunda sobre as nossas escolhas nos pode criar novas formulações sociais e económicas com a sustentabilidade ambiental em vista: não apenas mudar os padrões de consumo, mas mudar os nossos padrões de comportamento.

De como fazer pão, como tantos outros ofícios seculares, nos pode conectar com uma forma mais honesta de viver, e, mais importante que tudo, ligar-nos afetivamente ao outro, num mundo onde a empatia e o reconhecimento do outro parecem estar realmente ameaçados.


Os produtos desta coleção: