Escovaria de Belomonte I

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Escondida numa das ruas mais pitorescas do Porto, entre o Palácio da Bolsa e o Jardim das Virtudes, fica a única escovaria artesanal da cidade, que resiste até hoje. Graças à persistência, mas também ao bom gosto e brio com que estas escovas únicas foram sendo feitas, hoje em dia é uma referência do melhor trabalho artesanal especializado na cidade. 

Tudo aqui é feito à mão, do início ao fim — com a excepção das peças em madeira que são torneadas numa outra oficina na cidade, por um marceneiro especializado. Aqui há escovas de crina de cavalo, mas também de fibras vegetais como o tampico e o côco, mas sempre de fibras naturais. A história desta escovaria perde-se no tempo, mas graças a muita persistência e algum engenho sobreviveu ao longo do século XX na mesma família, na qual continua. Hoje em dia, já vai na quarta geração, cheia de ideias para o futuro. Apesar da sua reatualização recente ter sido baseada na tradição, e na valorização da mestria dos objetos do passado, essas ideias são projetadas num futuro em que se pensa cada vez mais no ambiente e em objetos ecológicos e duráveis.

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Antigamente havia muito escoveiros e vassoureiros. Na casa onde ele morava, em Massarelos, começou a fazer vassouras para depois vender a alguém que por sua vez vendia a algumas escovarias e ‘vassourarias’ que havia espalhadas pelo Porto.

Quem me conta a história da Escovaria de Belmonte é Rui Rodrigues, que gere esta pequena oficina com o filho. Herdou esta loja do seu sogro, por sua vez filho do escoveiro que se instalou naquela rua em 1942, e inscreveu o seu nome numa das tabuletas mais bonitas da cidade. 

A história desta oficina “de porta entreaberta” começa no início do século passado, quando António da Silva aprende o ofício de ‘vassoureiro’ e logo após completar a 4.ª classe (o ensino obrigatório à época) começa a trabalhar neste ofício, vendendo as peças que faz para um distribuidor que por sua vez as vende a outras lojas. ”Antigamente havia muito escoveiros e vassoureiros. Na casa onde ele morava, em Massarelos, começou a fazer vassouras para depois vender a alguém que por sua vez vendia a algumas escovarias e ‘vassourarias’ que havia espalhadas pelo Porto.”

Mais cómico que imaginar as tipologias de lojas que havia há um século atrás — que na época se chamavam “casas” — é imaginar que os percursos profissionais eram tão mais lineares e simples que os de hoje em dia. Aprender um ofício era comum — tanto na cidade como fora dela — e essencial para poder subir na vida e chegar, esperançosamente, a almejar um negócio próprio. A especialização era muito valorizada e necessária: numa sociedade muito estruturada, com pouca mobilidade social, cada profissão reunia uma complexa hierarquia de mestres e aprendizes, tanto na manufatura como na indústria, no comércio ou nos serviços.

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A partir de 1942, António da Silva, já casado e provavelmente depois de ser pai, estabelece-se no número 34 da rua de Belomonte, numa pequena oficina onde, provavelmente, amplia a sua oferta de vassouras e escovas. Na altura eram produzidas essencialmente escovas pessoais, espanadores e vassouras domésticas. Escovas para calçado, escovas para fato, escovas de cabelo… cada escova tinha uma função e eram objetos comuns não apenas em casa como no bolso do casaco. Duravam uma vida inteira e por isso passavam de pais para filhos. 

Tal como as escovas, também os ofícios passavam de geração em geração: “Entretanto quando faleceu o sr. António, o sr. Fernando continuou com isto e nessa altura começou a trabalhar muito para a indústria: indústria têxtil, indústria do calçado, indústria do queijo, etc.” Lentamente a Escovaria foi deixando de produzir as escovas pessoais e domésticas, as vassouras e os espanadores. Com o surgimento progressivo de alternativas industriais, mais baratas, o mercado das escovas artesanais foi definhando, e a Escovaria começou a trabalhar cada vez mais para a indústria: “para essa indústria do queijo, do calçado, todo o tipo de indústrias: do chocolate, rebuçados, etc. Quase todas as indústrias têm uso de escovas: mesmo as máquina que fazem vassouras usam escovas, o que é interessante.” ●

Este artigo terá continuação nos próximos posts. Fiquem atentos!


Todas as imagens são da autoria da Matilde Viegas, que colabora com a Mariamélia. Conheçam o trabalho dela aqui. Este artigo parte de uma entrevista/conversa feita por mim na Escovaria de Belomonte ao sr. Rui Rodrigues, no mês de Julho.