Escovaria de Belomonte II

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A partir dos anos 60, uma das principais clientes da escovaria era a indústria têxtil, talvez a indústria mais importante no norte do país durante muito tempo. Com o advento da superprodução de moda, as marcas internacionais procuraram países onde a produção fosse ainda mais barata (e com menos direitos laborais), o que determinou o declínio progressivo da indústria têxtil nacional — muito baseada na competitividade com base no preço — a partir dos meados dos anos 80.

A Escovaria começa a ter muitas dificuldades: “O sr. Fernando ainda se manteve aqui com uma ou outra indústria, até que começou a não ter força para se aguentar nisto.” Apenas com um cliente a manter a escovaria de portas abertas, o negócio foi mantido no limite, já sem qualquer lucro para o herdeiro deste ofício. “Esse cliente dava-lhe trabalho suficiente para que conseguisse pagar à Fátima [a funcionária que trabalha ainda hoje na escovaria] e para pagar os impostos, e para ele já era bom: ele não ganhava nada, só tinha prejuízo.” 

Em 2007, o sr. Fernando fica muito doente e acaba por falecer, e é nesse ano que Rui Rodrigues propõe à família da sua mulher ficar ele com o negócio. A família queria passar o negócio a Fátima, a funcionária que trabalha há muito anos na escovaria e quem tem mais experiência neste ofício: hoje em dia a verdadeira “escoveira” é ela. O facto de não ver a possibilidade de gerir o negócio e fazer as peças ao mesmo tempo fê-la recusar: “Se eu estiver aqui a fazer escovas, não vou andar lá fora a vender, e quem é que vem aqui comprar?”

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A partir daí fui ver o que havia antigamente: é muito parco em história escrita e desenhos, tem muito pouco, mas o que tinha deu para nós fazer-mos um filmezito.

O interesse por esta área, e a apetência para um lado mais comercial, levou Rui Rodrigues a tomar esta pequena oficina, com outras ideias em mente: “Eu trabalhava na área da decoração de interiores, sempre trabalhei com madeiras e cortiças e gostava muito destas coisas, e então propus à minha mulher ficarmos com isto. A partir daí fui ver o que havia antigamente: é muito parco em história escrita e desenhos, tem muito pouco, mas o que tinha deu para nós fazer-mos um filmezito.” E esse novo filme foi regressar às peças e aos materiais que se usavam nos anos 50 e 60: as escovas pessoais feitas com fibras naturais. Eram objetos quase desaparecidos, e por isso a vantagem desta pequena escovaria acabaria por ser o seu acervo do passado, substituindo as fibras sintéticas usadas nas escovas para a indústria pelas fibras naturais para uso pessoal.

O segredo para o sucesso deste pequeno negócio foi um bom timing e o entendimento da diferenciação pela qualidade: “a partir daí houve gente que se começou a interessar por isto “Olha que giro, fazer à mão…” e o passa-palavra e a qualidade começou-nos a trazer mais gente.”

Hoje em dia, a própria indústria voltou a procurar os serviços da escovaria, sendo um dos clientes que ainda mantém a loja aberta, e que cada vez mais procura escovas feitas à mão porque reconhece a qualidade e a durabilidade. As escovas pessoais e domésticas vendem-se mais, seja pela atração da loja como espaço de visita turística ou pelo valor de uma loja histórica e um ofício artesanal se manter no centro da cidade.

Há um público de nicho genuinamente interessado em peças de muita qualidade, de durem por gerações, e há um público que valoriza estes tipo de objetos, usados por outra geração habituada à omnipresença da escova pessoal: para sacudir a roupa de pelos e cotão, para eliminar uma nódoa, para escovar o colarinho do fato, em suma: por brio na aparência pública, que durante muito tempo tinha que ver com limpeza. O restante público vem por curiosidade, porque procura uma peça especial, ou porque procura quem dê vida às ideias para os objetos que imaginou. é o caso da nossa Escova de cozinha. Quando pensei numa escova artesanal para a cozinha, um peça multifuncional de grande qualidade, sabia que já conhecia o sítio certo para a encomendar. ●


Todas as imagens são da autoria da Matilde Viegas, que colabora com a Mariamélia. Conheçam o trabalho dela aqui. Este artigo parte de uma entrevista/conversa feita por mim na Escovaria de Belomonte ao sr. Rui Rodrigues, no mês de Julho.