entrançar a FLORA local
o aspeto de árvores jovens de vimeiro
entrançando um cesto de vime
usando uma ferramenta antiga de madeira para abrir a cana de vime em três partes iguais
Abílio Pereira e os seus cestos
uma pilha de cestas e tabuleiros em vime
diferentes tipos de cestas empilhadas na oficina
Fotos de © Matilde Viegas (Todos os direitos reservados.)
Há dois anos atrás, na feira anual de Vila do Conde, conversei com Abílio Pereira, artesão cesteiro da zona de Barcelos que me falou da dificuldade em encontrar vime em Portugal, e de como, estando no Minho, usa a madeira das árvores infestantes para fazer cestaria, já que esta não tem outros usos. Alguns meses depois, juntamente com a Matilde, visitei o seu atelier, onde trabalha com a mulher e o filho, que nos mostraram o terreno onde plantam o seu próprio vime e como tratam esta fibra polivalente.
— O vime que usa é todo nacional ou às vezes tem que comprar fora?
Agora sou quase que obrigado a ter que estar a produzi-lo para ter. Porque ele vinha do Chile, e os salários lá subiram muito e o que acontece: a mão de obra tornou-se cara e os produtores do vime começaram a deixar de produzir.
— Mas antes só trabalhava com esse vime estrangeiro?
IEra quase só do Chile. Agora comprei um bocado de terreno e estou a produzi-lo, só que isto dá muito, muito trabalho. Eu desde abril para cá nunca mais tive um domingo de sossego! Um domingo, nem é um sábado, um domingo! Porque este vime para ser grande, alto, ter aí três metros e meio ou quatro de altura, é preciso tirar os rebentos. Tem de ser limpo pelo menos uma vez por semana, e muito regado. Eu nunca imaginei que dava tanto trabalho, se não… Só me dedico a isto porque tenho um filho que trabalha nisto comigo a 100%. Porque se não, com a idade que estou não arriscava.
Eu gastei muito dinheiro a comprar uma parcela de terreno. Fazer as plantações, plastificar o chão todo no terreno para meter as estacas e não virem as ervas daninhas porque se não as ervas às tantas comem o vime. E gastei lá já quase mais dinheiro para ver se consigo tirar. Graças a deus tenho lá vime tão bom como o que estava a vir do Chile, tenho sim senhora. Mas tem-me dado muito trabalho. Por isso é que eu sei que muita gente, mesmo com condições, não produzem porque sai caro. Não sai nada mais barato que mandá-lo vir, tivéssemos nós donde ele venha. Eu antes o queria mandar vir porque ganhava mais dinheiro a fazer o artigo em casa do que estar a produzir o vime.
uma cesta em fita de madeira de Acácia
— Então estas cestas afinal não são em pinho...
Isto é acácia. Você não sabe o que é acácia [Acacia longifolia], pois não? Sabe o que é a mimosa [Acacia dealbata]?
— Sim, sim.
São “irmãs”, são parecidas.
— E também são parecidas com as Austrálias. São todas espécies invasoras…
Aqueles cesteiros que estão acolá, os dois, não sabem o que são Austrálias. Vocês daqui, mesmo do Porto sabem o que é. Mas eles de onde são não sabem. Um é de lá de cima da Guarda, de Gonçalo.
arbustos jovens de vimeiro no campo
— Ah, porque lá não há Austrálias? Só há aqui no Norte.
Nós aqui é uma praga. A cana de bambu em ponto grosso… lá para cima não têm nada disso. Veio lá um senhor que já faleceu…. veio a minha casa para eu lhe ir arranjar “raízeiros” de canas, para ter canas graúdas. Levou para cima aquilo e não deu, não morreram, mas não saiam da cepa torta. E aqui em Vila Verde, aquilo é uma praga que chega a atacar as árvores todas… Eu tenho canas em casa a pesar 30-40 quilos cada cana. E depois também faço cestos daqueles, com uma cana faço dez ou doze cestos, no inverno.
entrançando uma cesta em vime
— Tem muito rendimento.
Aquilo torna-se rentável e barato, porque ninguém quer aquilo, porque aquilo é uma praga… Enquanto vamos para estes produtos assim…
harvested willow gathered in his workshop
— Estas [cestas] aqui é que são de pinho, não é?
Isto é que é pinho [batendo na madeira do cesto]. Fiz uma “maquinetazita” lá, estilo uma plaina automática… [para extrair as fitas de madeira].
— Porque é uma madeira mais dura não é, e estas aqui já são mais fininhas…
Esta aqui nós desfiamos como o vime, enquanto que esta não. Aparece alguma madeira em que se põe na tal maquineta e ela sai “fita” mas a grande maioria não se tira. Tem que saber escolher bem a madeira para conseguir tirar “fita” se não não se consegue.