arte do esmalte
o aspeto do esmalte em cru
um sistema de forno de alta temperatura único
detalhes simples
Placas icónicas: “Cuidado com o cão” e “Aqui há gato”
submergir as peças de aço em 3 tinas para desengorduramento
pigmento para esmalte
Photos by Matilde Viegas
Numa das muitas visitas que fiz a esta oficina de esmaltagem, conversei com Luís Tato, herdeiro de uma pequena empresa familiar, que começou juntamente com o pai no final dos anos 90. Ao contrário do que era a tendência na época, em que a maioria das fábricas de esmaltagem fechavam portas, eles decidiram abrir e dedicar-se a nichos de mercado que procuravam peças muito específicas e personalizadas.
— Quando começou a empresa?
Foi no final dos anos 80. O sonho começou a nascer por volta dos anos 90. Aquilo ainda foi um bocadinho um embrião… em 1990-91 andamos a ver qual seria a hipótese de uma ideia na qual tivéssemos alguma exclusividade, até que apareceu esta ideia. As fábricas estavam a fechar nessa época, as fábricas de esmaltagem que existiam aqui no Porto e a nível nacional.
— Ainda existiam algumas fábricas?
Sim, mais na zona Norte. Ainda apanhamos alguma fábricas a laborar.
— E faziam o quê, essencialmente, que tipo de peças?
Essas fábricas faziam utensílios de cozinha, banheiras, sinais de trânsito, números das portas, placas das ruas… Tudo o que era ligado à área do esmalte… eles faziam, tudo o que eram utensílios de cozinha, etc. Entretanto, essas fábricas começaram a fechar e vimos que havia ali um mercado que podíamos explorar. Acontece que, foi como já lhe disse, chamavam-nos loucos porque nós estávamos a abrir e os outros a fechar. E nós achámos que devia ficar aqui uma empresa a fazer também.
uma caneca, a meio do processo de esmaltagem
— Já tinham conhecimento nessa área?
O meu pai é que tinha o know-how praticamente todo. Ele esteve à frente de algumas fábricas de esmaltagem e tinha muito know-how. Eu simplesmente aprendi o que ele me ensinou e depois tentei valorizar a arte do esmalte, que hoje já está mais valorizada, felizmente, graças também à existência da nossa empresa. Começamos então a explorar este sector e começamos por trabalho mesmo muito artesanal, ou seja, muito primitivo ainda, sem computadores, sem informática, sem internet — não existia a internet — nada, ou seja, …através de escantilhões, cartões... fazer os números com escantilhões de alumínio, escantilhões de cartão, plástico… era uma processo muito rudimentar. E portanto, aos poucos, fomos começando a tentar melhorar a qualidade.
Com o passar do tempo, começamos a apostar um bocadinho na informática, programas de desenho, entretanto apareceu a internet, que foi uma grande ajuda, porque antes as nossas bases de dados eram as páginas amarelas [risos]. E cheguei a ter páginas amarelas de norte a sul, que era o nosso índice, ou seja, íamos ao índice e tinha: “casas de ferragens, casas de carimbos, casas de velharias, pet-shop’s… esses foram os primeiros clientes. Aliás, foi da área de Lisboa que vieram os primeiros clientes. Porque, apesar das fábricas serem no norte, Lisboa é que consumia mais esmalte. Começamos a fazer umas amostras, e tal, e a reacção do público era muito boa, os clientes adoravam saber que havia uma empresa do norte que ia começar com essa atividade e começaram-nos a pedir coisas diversas: os números de porta eram a base, era o número um. Depois eram as placas “dos cães” e o “Aqui há gato” (risos).
— Os famosos!
Exatamente. E claro, nós nunca tínhamos feito nada disso, os cliente começaram a mandar-nos uma amostras antigas e a partir das amostras antigas começamos a fazer réplicas. E pronto, começamos a aumentar a nossa capacidade de produção em termos de podermos fazer outros modelos, etc. E, ao longo desse tempo, fomos aos poucos evoluindo, evoluindo… até que, de facto entra a era da informática que nos facilitou muito, embora, há muito trabalho aqui que tem de ser artesanal. Tem que ser um trabalho tradicional, feito manualmente, porque a informática não faz tudo, e por um lado, ainda bem. Por isso muita coisa tem de ser manual… e começamos a fazer tudo à base de placas, o nosso mercado numero um é de produção de placas. E depois de estabilizar a parte das placas, então, começaram a aparecer naturalmente outras áreas, desde os candeeiros, a personalização de louça esmaltada, inclusivé também já fazemos alguma coisa de loiça [própria] esmaltada, e de restauros também de outras peças: mostradores de relógios antigos, que é uma área bastante procurada porque há muita dificuldade nessa área, e aos poucos fomos aperfeiçoando cada vez mais essa produção.
Felizmente, chegamos agora a uma altura já com uma qualidade considerável e até mesmo internacionalmente somos reconhecidos. Trabalhamos com muitos países: toda a zona nórdica (da europa), Austrália, Estados Unidas e a Europa. Mas cada vez mais para os Estado Unidos e cada vez mais para a Espanha, por exemplo. Tudo, tudo por encomenda e personalizado. Ainda ontem esteve aqui, por exemplo, uns clientes que querem fazer uns candeeiros para pôr por cima de uma mesa de bilhar, que são uns candeeiros que levam três campânulas destas, que leva depois um suporte de um metro e vinte, mais ou menos, por acaso está giro. Ou seja, são coisas que não se vê no mercado…
esmalte branco
— Exato, são [peças] mais difíceis de encontrar…
… e que nós tentamos fazer personalizado, o que o cliente quer. E portanto, atualmente, somos o único atelier da Peninsula Ibérica a fazer este tipo de trabalho e o nosso objetivo é tentar cada vez mais melhorar a qualidade e ter novos produtos… Uma coisa que me fascina são as peças antigas, se eu puder fazer uma réplica de peças antigas eu faço. Neste momento vamos recuperando algumas, é o caso dos bidés antigos, jarros, bacias, etc. ainda vamos fazendo alguma coisa para manter aquela tradição, aqueles modelos antigos, para não deixar morrer essa arte. Mas essencialmente, a área número um é mesmo [as] placas esmaltadas, no entanto vamos acompanhando com a produção de outra peças, que também é muito bom. Portanto, isto é uma empresa familiar e eu sou a segunda geração [risos].
pendurando um candeeiro para cozido no forno
— Ainda está no início…
É. E tudo devo ao meu pai, porque se não fosse o meu pai isto não existia. Ele é que tinha o know-how, eu simplesmente valorizei e aprendi aquilo que ele me ensinou. Foi óptimo, tudo lhe devo a ele, e pronto, aproveitei ao máximo o que pude aproveitar enquanto ele foi vivo e pronto, tentei aproveitar ao máximo tudo o que ele sabia e que um dia me poderia faltar, …e falta agora, portanto, o que aprendi aprendi, o que não aprendi não aprendi… e tenho uma equipa muito boa também. Felizmente tenho uma equipa que me apoia e que também são profissionais, gostam daquilo que fazem o que é muito bom. E portanto, não é fácil arranjar pessoas para trabalhar nesta área. Não há nenhuma formação profissional nesta área, a única formação profissional é aqui, não há universidades, não há nada… Portanto, temos que dar a formação, temos que começar do zero, mas, ao fim de um ano já está operacional para fazer muita coisa. Temos aqui um funcionário que tem um ano [de casa] e já trabalha muito bem, mas também é preciso gostar. Se não gostar não há nada feito.