A escova especial

os últimos detalhes na escova

 

uma escova única

 

polir o acabamento da madeira

 

escovas em processo de fabrico

 

uma verdadeira oficina

 

vassouras de piassaba (fibra)

 

pequenas vassouras de palma e de piassaba

 

aplicar cera na madeira

 

a equipa da Escovaria de Belmonte

Fotos da Matilde Viegas (direitos reservados)

 

Uma conversa que tive com o responsável da Escovaria de Belomonte, Rui Rodrigues, que mantém a última escovaria da cidade a funcionar dentro da família, na terceira geração. Nesta conversa, falamos muito do valor dos produtos artesanais, de como estas peças podem ser objetos de culto ou mesmo de luxo e do gosto em fazer bem.




[Sobre a história recente da escovaria, que começa em 2007] 

Isto [a escovaria] esteve para fechar porque a família queria dar isto à Fatinha porque era a única que percebia de escovas, mas ela dizia que se “eu estiver aqui a fazer escovas não vou andar lá fora a vender, quem é que vem aqui comprar?”. E por isso a Fatinha não quis. Eu trabalhava na área da decoração de interiores, sempre trabalhei com madeiras e cortiças e gostava muito destas coisas, e então propus à minha mulher ficarmos com isto. A família em vez de fechar isto, passou-nos o negócio. A partir daí fui ver o que havia no antigamente. É muito parco em história escrita e desenhos, tem muito pouco, mas o que tinha deu para nós fazer-mos um “filmezito”. Então começamos a investir nas escovas pessoais, as escovas domésticas, mas com uma mais-valia: escovas bem trabalhadas, [feitas] com madeiras.

— Começaram a voltar a coisa para a qualidade.

Exatamente. Portanto, fazer com qualidade e com cerdas naturais, porque já se tinha acabado com isso, usavam-se os nylons porque as cerdas naturais para a indústria não tinham interesse nenhum. Embora nós, agora, trabalhamos com o pelo natural para a indústria, misturado [com pelo sintético] porque achamos que funciona melhor, tanto funciona que os clientes pedem “É destas que eu quero”. Então peguei nisso, fui fazendo algumas coisas diferentes, as coisas foram dando resultado e agora têm vindo a crescer, aos pouquinhos. E a partir daí houve gente que se começou a interessar por isto: “Olha que giro, fazer à mão…” e o passa-palavra e a qualidade começou-nos a trazer mais gente. E agora não só temos a indústria (que é uma coisa que ainda nos mantém), e temos mais indústria, que procura o feito à mão porque é mais resistente e dura mais tempo. E também temos as escovas pessoais e domésticas que também se começam a vender muito mais. Embora eu costumo dizer que as nossas escovas domésticas e pessoais não têm preço, têm um valor: o valor que nós lhe damos. Porque na realidade, chega a uma determinada altura e não é o preço que conta, é a qualidade da coisa e a garantia que nós damos em como aquilo funciona para uma determinada função…

— E que dura a vida inteira…

… e que dura a vida inteira. A menina compra e depois fica para os filhos, dos filhos para os netos, na boa. Ainda outro dia tivemos aí uma escova que já tinha aproximadamente 80 anos, reparámo-la e a senhora foi felicíssima da vida com aquilo. Nós temos ali uma escova que trabalhou durante 40 anos com um engraxador: ela está praticamente nova. Tem o desgaste do tempo: pôr a mão, a madeira empenar um bocado, mas a função está lá, ainda pode ser usada.

— Ainda dura mais 100 [anos].

Exatamente. Foi aí que nós pegamos, nesse tipo de trabalho e começamos a dar-lhe uma roupagem diferente. Entretanto, há coisa de dois anos foi começando a entrar o meu filho, portanto, eu sou a terceira geração, se assim se pode dizer (seria a minha mulher mas sou eu) e o meu filho, portanto, a quarta geração. E pronto, ele deu um ‘safanão’ maior a isto. Já está num patamar que não estava há dois anos. Ele há um ano atrás conseguiu com que isto crescesse mais um bocado, honra lhe seja feita, não me custa nada admitir. Isto é sempre assim: ou vem um que melhora ou vem um que deita tudo abaixo, é mesmo assim.

— Mas tem que haver mudança…

Tem que haver mudança. A mudança é sempre difícil, porque eu sendo mais velho, como conhecedor do mercado, nunca deixo: “Vá, podes fazer”. Fui sempre cortando. Embora por vezes ele tinha razão, mas eu também não lha dava logo para ele perceber que as coisas não são como queremos, às vezes é como podemos. Então fui cortando. Mas houve uma altura que tive de começar a dar e realmente tem vindo a dar resultado. Agora estamos os dois ainda meio-meio, mando meio eu, manda meio ele. Isto é futuro para ele, vamos ver… em princípio é isso que nós estamos a preparar. O futuro para ele terá que ser bem melhor que o da altura em que eu tinha a idade dele. (…) Eu já consegui, depois do sr. Fernando, aumentar um bocadinho as coisas [o negócio] para melhor e agora o Sérgio com certeza que os horizontes dele são outros. Portanto, é assim que estamos neste momento na Escovaria de Belomonte.

Fátima — a artesã das escovas

— Estava a dizer que uma parte considerável [dos clientes da Escovaria] ainda é a indústria.

Sim, ainda é o que mantém isto, neste momento ainda é a indústria.

A indústria especializada principalmente do têxtil ou já é uma mistura de várias indústrias?

É uma mistura: industria têxtil, indústria do calçado nem tanto porque ainda está muito difícil… mas também fazemos. Indústria têxtil, indústria do queijo, chocolate… é basicamente isso. Esta aqui é para a indústria de papelaria.

escovas pessoais personalizadas

 

A outra parte então já são os clientes finais?

Exatamente, que compram ou porque gostam ou porque… Isto é assim, a menina para comprar uma escova pessoal ou uma escova de calçado pode gastar 100 euros, até pode gastar mais, neste momento pode gastar até 104 euros [a escova mais cara], mas pode gastar muito mais… Mas imagine uma escova para calçado: quem gasta 100 euros numa escova não vai levar só uma, porquê, porque o calçado não se contenta só com uma escova. O calçado tem uma escova para puxar a cera, outra para puxar brilho, e outra para limpar diariamente. E quem compra uma escova dessas é alguém que tem uma calçado que não é igual ao meu e que custa, sei lá…

… várias vezes essa escova, não é?
Exatamente.

Que é para ser proporcional ao investimento.

Claro. A primeira vez que eu vendi o par de escovas, o kit completo, o cliente disse: “Eu quero tudo… porque eu tenho sapatos que custam 2000 e 2500 euros, por isso eu tenho de tratar isto 5 estrelas.” [Neste contexto] 400 euros o que é… não é nada. E fica para uma série de calçado. Portanto isto é tudo proporcional aquilo a que cada um pode chegar.


— E que quer, não é? Há pessoas que investem em certas coisas muito específicas.

Sim, sim, exatamente. Eu às vezes gosto de ver… para me aperceber do que é o luxo. Eu tive aqui uma senhora que veio cá comprar uma escova de propósito, porque nós fazemos aquelas escovas [aponta para a vitrine]. São 10 [ao todo], nós vamos na quinta, ela levou a quarta. Ela queria levar a primeira, mas a primeira já tinha ido.

Porque há peças que vocês numeram?

Exatamente. Está em quatro de dez, vou fazer agora a quinta [escova].


polindo a escova

— São edições limitadas.

Sim, edições limitadas… A senhora veio cá: “Não interessa para que é que serve, eu gosto muito disto.” Era uma senhora que vinha com uma [mala] Louis Vuitton, e uma Louis Vuitton custava 35 mil euros. (…) Mas isso não é para qualquer um, nós só vamos à Louis Vuitton se tivermos dinheiro para comprar. A menina não vai à Louis Vuitton para comprar uma carteira ou seja o que fôr e perguntar o preço, eles nem têm lá preços. Não sei se já entrou numa loja dessas, eu já entrei por curiosidade, nós vemos: “Gosto desta!”, gosta e depois chega ao fim e paga, ou o empregado vem consigo e passa-lhe o cartão de crédito que é só passar. Aqui não existe o preço, é o valor que a coisa tem. Ainda outro dia estive a ver… — isto só para chegarmos aquilo que eu lhe vou querer dizer — eu vou falar outra vez da Louis Vitton que é a que me vem agora à cabeça. Imagine que a sua avó tinha comprado um vestido na Louis Vitton há uns anos atrás.

Hoje em dia vale quarenta vezes mais.

Exatamente. E não só: fala com eles e põe-lhe aquilo para o seu corpo. O mesmo vestido, arranjam e põe-lhe aquilo para o seu corpo.


Lá está, porque é um negócio, não só da personalização, mas é um negócio da alfaiataria à medida, tornada contemporânea e de um nível de luxo.

Exatamente. Porque aquilo é bom, não vai deitar fora… Portanto, continua com esse nível de luxo, feito na mesma por eles, pegam naquilo, põe na menina, tal, tal, tal, segura ali não sei quê, e fica novo. E no entanto já era da sua avó, mas é um Louis Vitton. E no fundo é isto que…

É o que vocês tentam replicar aqui também, com as escovas.

Exatamente. (…) Portanto, nós se pegarmos numa coisa, num objeto que nos dure várias gerações, nós gostamos disso. “É pá, eu tenho coisas do meu avô, que fixe! Olha o tempo que isto durou!”

placa com o nome do fundador

Hoje em dia valoriza-se cada vez mais isso. O vintage está outra vez altamente valorizado.

Exatamente. Eu julgo que isto depois também vai acabar, há de vir outra altura em que as coisas vão continuar. Agora o que é que nós, Escovaria, temos de fazer? É colocarmo-nos num ponto em que a procura vá sendo sempre a mesma, não bem a mesma, mas andar por ali. Nós precisamos de vender uma peça, ou duas, ou três, mas que nos mantenham a casa. E é a esse ponto que nós queremos chegar. Mas queremos mesmo, é uma condição que nós temos, e havemos de lá chegar. Nunca deixando aqui o “espanadorzinho” e não sei quê, queremos fazer coisas para que marque realmente...

— E que construam a marca, também para o futuro, não é?

Exatamente. É o que nós estamos a tentar fazer. Vamos ver se conseguimos.

Sim, é um trabalho mesmo a muito longo prazo. Que demora muito tempo a construir.

Sim, sim, claro. Demora muito tempo a fazer. Agora está o Sérgio, e depois virá, se Deus quiser… (Eu não sou muito católico, mas esta coisa do “se Deus quiser” vem sempre…) vem o filho do Sérgio… e é isso que nós pretendíamos. É engraçado… está a ver, eu já estou na terceira, o Sérgio na quarta geração, uma quinta geração… quer dizer, há de um dia chegar e dizer: “Esta malta têm que ser mesmo muito bons para conseguirem estar aqui ainda a resistir.”

… durante tanto tempo e manter a coisa.

Exatamente. “Eu tenho escovas que a minha avó já comprou lá e está porreira… o meu avô, o meu bisavô, não sei quê.” E é essa coisa que nós realmente queremos, é deixar uma marca. Vamos ver! Se calhar é sonhar alto mas o sonho comanda a vida.

Previous
Previous

Quanto custa o trabalho?

Next
Next

the special brush